A relação acabou, mas eles permanecem parceiros profissionais, provando que o companheirismo pode falar mais alto.

A primeira pessoa que a diretora de produção Maria Elisa Coelho, de 41 anos, cruza ao entrar no escritório da sua agência, a Oroboro Entertainment,  é o diretor de atendimento Gustavo Annecchini, de 38. Eles conversam sobre as decisões estratégicas do negócio antes de voltarem para as suas respectivas salas, a dez passos uma da outra. Esta história não mereceria ser contada se os personagens fossem apenas sócios da mesma empresa. O curioso é que eles foram casados por mais de dez anos e estão separados há apenas seis meses. A sintonia entre os dois é tão forte que escreveram a quatro mãos o livro “Bluebell”. “Cuido de uma área e Elisa, de outra. Somos uma dupla imbatível. Criamos uma empresa do nada e hoje ela é uma referência na área de agenciamento. Não fazia sentido a gente acabar com tudo”, diz Gustavo. É claro que a rotina profissional não é um mar de rosas. “De vez em quando, temos discussões acaloradas, mas procuramos manter a lucidez”, afirma Maria Elisa.

Dividir o ambiente de trabalho com o ex-companheiro está na ordem do dia. Os dados do IBGE e do Sebrae endossam: o número de empresas familiares no Brasil chega a 90%. Define-se assim o negócio que tenha membros da família — mãe, pai, cunhado ou ex-companheiro — entre os sócios e/ou colaboradores. No resto do planeta, o panorama não é diferente: 90% das 300 maiores companhias têm controle familiar.

Mas a convivência não é fácil. Os desafios de gestão não chegam perto do problema que é resolver conflitos internos sem respingar na vida pessoal. Este tema ganhou até um estudo, a “Spillover Theory” (Teoria do Derramamento), que visa a entender como certos comportamentos no trabalho afetam  o relacionamento familiar. “A continuação do negócio, depois que o casamento termina, depende do nível de saúde mental  dos envolvidos. Quem foca no lado positivo do ex, como companheirismo e honestidade, consegue levar adiante.  Na separação, pode-se cair na armadilha de querer arrumar um culpado para o fim da relação. Se os dois perceberem que ambos têm uma parcela de culpa, é possível manter um bom relacionamento”, diz o psicanalista Luiz Alberto Py.

Separados há 13 anos (após 8 de união), os designers Mariana Betting Ferrarezi, de 45 anos, e Roberto Hercowitz, de 44, mantêm o mesmo escritório até hoje. O ex-casal se conheceu em Ilhabela (SP), há mais de duas décadas. Na época, Mariana trabalhava na área de marketing de um banco. Foi graças a Roberto, que era formado em Desenho Industrial, que ela descobriu o talento para a nova profissão. Em 2002, passaram uma temporada em Barcelona. Ela fez curso em design de móveis e interiores no Istituto Europeo di Design (IED), e ele mestrado em ecodesign na Escola Superior de Design e Engenharia (Elisava). Abriram um estúdio e vendiam objetos para lojas de design espanholas. No mesmo ano, nascia a Em2 Design, em Barcelona, só com peças de decoração. De volta ao Brasil, decidiram morar no Rio e, em 2006, abriram o escritório em Ipanema. Não demorou muito para o trabalho da dupla ser reconhecido. Em 2011, ganharam o prêmio mais importante de design, o IF Product Design Award, na Alemanha, com a poltrona Fago. “Temos uma ligação espiritual muito forte. O Roberto é a pessoa que mais confio na vida. Nunca cogitamos colocar um ponto final na parceria”, diz Mariana.

Conviver com o ex o dia todo pode ser um grande desafio  para alguns casais, mas, claro, também há quem veja vantagem. Mariana diz que o hábito de conversar sobre tudo, durante o casamento, foi levado para o trabalho. Já Roberto acredita que, graças aos anos de convivência, é capaz de adivinhar o que a ex-mulher está pensando. “A desvantagem é que ela sabe que tenho tendência a procrastinar e puxa as orelhas”, diz ele.

Esse também é o caso dos empresários Juliana Mattoni e Paulo Pimenta, ambos de 36 anos. Eles são sócios da Mattoni Comunicação, escritório de agenciamento e assessoria de imprensa que tem 22 clientes, entre eles Bruna Marquezine, Claudia Raia e Tatá Werneck. Paulo e Juliana se conheceram aos 18 anos, ao estagiarem no mesmo laboratório da faculdade. De lá para cá, não se desgrudaram mais. Os dois seguiram caminhos profissionais diferentes, mas sempre trocavam informações sobre trabalho. O negócio dela começou a prosperar, e Juliana chamou o marido para virar sócio da empresa. “Somos almas gêmeas profissionais e parecidos em tudo: temos o mesmo senso de humor, os mesmos gostos, usamos até o mesmo perfume. Nunca tivemos vontade de tirar férias da cara do outro”, garante Paulo.

Mesmo dividindo a rotina em casa e no trabalho, o excesso de convivência não foi o culpado pelo fim da união. Por terem se conhecido muito jovens, ambos tinham curiosidade de vivenciar experiências diferentes. Concretizar a separação,  no entanto, foi um processo dolorido. Pais de Antonio, de 7 anos, e Maria Filipa, de 3, eles recorreram à terapia de casal, aos búzios, às cartas, à astrologia e até fizeram uma segunda lua de mel na Grécia. Todas as tentativas foram em vão e, em novembro de 2018, decidiram seguir caminhos diferentes; Paulo, inclusive, passou a namorar homens. “Nós somos um casal de arara-azul! Tem dias que ligo dizendo que estou mal, com saudade dele”, diverte-se Juliana. O bom relacionamento entre os ex-companheiros nem sempre é bem visto por quem está de fora. Paulo conta que muitas pessoas dizem que, uma hora, eles vão brigar feio e a empresa vai fechar. “Querem ver o circo pegar fogo e sem extintor de incêndio. Dizem que o rompimento é recente, que só tem seis meses, que, daqui a pouco, a gente acaba com a sociedade”, diz ele. O ex-casal, que tinha combinado de um não desautorizar o outro na frente dos filhos, levou o costume para o negócio. “Se um de nós falar alguma bobagem, a gente corrige depois, quando estivermos a sós, nunca na frente do cliente”, afirma Juliana.

Com tanta sintonia, é difícil imaginar quem vai se aventurar no meio dessas parcerias. Maria Elisa e Gustavo, que continuam dividindo o personal trainer e a faxineira, estão na fase de não querer saber o que o outro anda fazendo. Solteira no momento, Mariana já namorou por sete anos. O namorado levava numa boa o relacionamento com o ex, mas ela sabe que é exceção. “Vivemos num mundo machista, né? É difícil para alguns entender que existe amizade entre um homem e uma mulher”, comenta. Roberto admite que trabalhar com a ex é fonte de ciúme: “Digo para ter medo de outra mulher. Afinal, com ela já fui casado e me separei”. Já Paulo e Juliana arrumaram novos parceiros. No começo, os dois sentiram ciúmes. Ela confessa que chegou a ter uma crise de choro quando soube que Paulo estava apaixonado. Ele também tinha dúvidas se o cara seria legal para a ex e para os filhos. “O mais importante é que nós dois concordamos que, seja lá com quem nos relacionarmos, essas pessoas não vão dar palpites na nossa empresa. Este território é só nosso”, conclui Paulo.

Fonte: O Globo

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